sexta-feira, 11 de março de 2011

Pernambuco vive sua revolução industrial

Com um pacote de R$ 46 bi em investimentos, Estado vira locomotiva do Nordeste; PIB cresceu 16% em 2010

Estaleiros, refinarias, petroquímicas e ferrovia começam a mudar a economia que viveu séculos do açúcar

Daniel Marenco/Folhapress

AGNALDO BRITO
ENVIADO ESPECIAL A SUAPE (PE)

O helicóptero decola do heliponto do Centro Administrativo de Suape. A 200 metros do chão, é possível ter a dimensão da revolução econômica que a injeção de R$ 46 bilhões em investimentos públicos e privados previstos até 2014 está promovendo em Pernambuco, a nova locomotiva do Nordeste.
Não é o único canto do Estado que avança ligeiro e que tem mudado não só a vida dos 8,7 milhões de pernambucanos, mas sobretudo permitido a volta dos retirantes que um dia caíram no mundo atrás de uma vida melhor.
No interior, duas obras gigantes (a transposição do rio São Francisco e a construção da Ferrovia Transnordestina) ajudam a desenhar uma nova paisagem na vida do morador do agreste e do sertão.

LITORAL
No litoral, onde pode-se observar a síntese da nova dinâmica econômica, o complexo industrial-portuário de Suape, erguido a 40 quilômetros ao sul do Recife, brota a velocidade impressionante.
"Cento e vinte empresas já estão instaladas, outras 30 estão em construção e mais 20 irão surgir até 2014", enumera Frederico Amâncio, vice-presidente de Suape. Do alto é possível avistar obras em todos os cantos dos 13,5 mil hectares do complexo.
Justo ali, onde há 380 anos invasores holandeses -que acharam de tomar uma fatia do Brasil colônia- indicaram como ponto mais propício à criação de um porto.
E foi nessa região, após romperem pequena porção da parede dos arrecifes que protege o litoral do Atlântico, que os holandeses criaram uma passagem para que os barcos de açúcar alcançassem os navios em alto-mar.
A visão dos invasores ganhou forma quase quatro séculos depois. Investimentos de mais de US$ 3 bilhões nos últimos dez anos criaram a infraestrutura básica para o atual ciclo de expansão do porto de Suape, e converteram a região no principal polo de atração de negócios do Nordeste brasileiro.

A APOSTA PRIVADA
Agora, o PIB pernambucano demonstra vigor e o combustível é Suape. Em 2010, o PIB estadual foi de R$ 87 bilhões -expansão de 15,78% num só ano. Os velhos engenhos de cana e as usinas de açúcar e álcool pouco a pouco deixam de ser predominantes na matriz econômica de Pernambuco.
A aposta do poder público em Suape ao longo de 40 anos -desde o plano original de 1960- começou a seduzir o capital privado. O complexo industrial-portuário, um modelo inédito no Brasil, está fazendo surgir um novo Estado industrial no país.
"Não tínhamos indústria de petróleo e gás, nem indústria naval ou automobilística. Agora há uma nova perspectiva para o Estado", diz Geraldo Júlio, presidente de Suape e secretário de Desenvolvimento Econômico.

ACIMA DO NORDESTE
A forte expansão econômica elevou a renda per capita do Estado a quase R$ 10 mil, acima da média do Nordeste, de R$ 7.488, mas ainda inferior à renda nacional, de R$ 15.990.
A criminalidade caiu 25% em quatro anos, mas ainda é de 40 homicídios por 100 mil habitantes, quatro vezes mais que no Estado de São Paulo, e superior à média nacional, de 24,5 por 100 mil.

 

Investimento público cresce 2,5 vezes em 4 anos

DO ENVIADO ESPECIAL A SUAPE

Os investimentos públicos do Estado de Pernambuco cresceram 2,5 vezes nos últimos quatro anos.
A expansão do gasto público, com forte apoio do governo federal, é parte da explicação do impressionante crescimento pernambucano.
No quadriênio de 2003 a 2006, o governo local investiu em média R$ 680 milhões em obras de infraestrutura. No período de 2007 a 2010, o governo estadual conseguiu elevar esses aportes à média de R$ 1,7 bilhão de investimentos ao ano.
Só no ano passado, o Estado autorizou gastos de R$ 2,7 bilhões.
Pernambuco tem recorrido a financiamentos para sustentar essa expansão, mas afirma que isso não tem elevado o nível de endividamento. A explicação está na elevação das receitas correntes.
"A redução de custeio e o aumento da arrecadação de ICMS fizeram o endividamento do Estado cair de 82% para 63% da receita corrente líquida", diz Geraldo Júlio, secretário de Desenvolvimento de Pernambuco.
Hoje, a receita total de Pernambuco é de R$ 14 bilhões, impulsionada pela arrecadação de ICMS que cresceu 18,2% em 2010.

EFEITO POLÍTICO
Essa gestão tem dado resultado eleitorais. A força do governador Eduardo Campos (PSB) pôde ser medida na eleição do ano passado. Campos foi reeleito em primeiro turno com uma votação inédita no país: 82,8% dos votos válidos, um recorde. (AB)

 

Setor privado forma polos industriais

Depois dos projetos estruturantes, companhias começam a negociar a vinda dos fornecedores para Suape

Empresas que atendem estaleiro avaliam se vão investir e companhia de aerogeradores pode atrair quatro empresas


DO ENVIADO ESPECIAL A SUAPE (PE)

A expansão industrial de Pernambuco deve entrar agora na segunda fase: a atração de fornecedores dos projetos-âncoras.
Um dos maiores empreendimentos no Estado, o EAS (Estaleiro Atlântico Sul) negocia a instalação, em Suape, de fornecedores de equipamentos para a montagem de navios-plataforma e navios-sonda usados na perfuração de campos de petróleo.
"Alguns grandes fornecedores internacionais já vieram aqui para observar se o polo naval oferece escala de produção. Acho que, em breve, vamos ver alguns desses fornecedores chegando", diz José Roberto de Moraes, diretor de operações da empresa.
O EAS, associação entre a Queiroz Galvão, a Camargo Corrêa, a PJMR e a sul-coreana Samsung, conseguiu uma carteira que vale hoje US$ 8,1 bilhões.
São 22 navios-petroleiros, sete navios-sonda e o casco da P-55 (plataforma que irá operar no campo de Roncador, na bacia de Campos, no Rio), um pacote todo atrelado aos pedidos de uma só empresa, a Petrobras.
Para o EAS, atrair fornecedores para ampliar o polo naval de Suape pode ajudar o próprio estaleiro a melhorar a performance de construção das embarcações. O plano do estaleiro é reduzir o tempo em que um casco de navio permanece no dique seco.
Hoje, eles demoram até seis meses na instalação. O plano é reduzir o tempo para dois meses. Para isso, o estaleiro terá de montar navios a partir de megablocos. O primeiro petroleiro, o João Cândido (em fase de acabamento), foi montado a partir da junção de 240 blocos.
O Zumbi dos Palmares, atualmente em montagem, será construído a partir de 150 blocos. O terceiro, ainda não batizado, será feito com 30 blocos gigantes, cada um montado fora do dique.
A meta do estaleiro é montar um petroleiro unindo apenas 22 partes.

DE VENTO EM POPA
Se as perspectivas para atração de fornecedores do estaleiro são boas, as chances de a Impsa (Indústrias Metalúrgicas Pescarmona) criar o primeiro grande cluster em Suape são maiores ainda. A companhia argentina entrou no negócio de energia eólica há cinco anos. A atividade já responde por 60% das receitas.
O sucesso nos leilões de energia eólica no Brasil garantiu à companhia uma carteira de pedidos de R$ 3 bilhões em aerogeradores.
"A empresa está instalada em Suape há dois anos e já negocia a vinda de pelo menos dois produtores de torres para os aerogeradores e duas empresas de pás (as hélices do gerador)", diz o gerente comercial da empresa, Paulo Ferreira.
Distante cerca de três quilômetros da Impsa, a Petrobras monta uma mega refinaria que terá capacidade de processar 250 mil barris de petróleo por dia. Ao lado da refinaria também é construída uma petroquímica.
A estatal não quis falar sobre o projeto, mas a expectativa em Pernambuco é que a produção de matérias-primas petroquímicas viabilize um polo têxtil na região, com indústrias para fabricação da fibra, do tecido e, quem sabe, confecções.
Outra promessa é a formação de um novo polo automotivo no Nordeste, com a instalação da Fiat até 2014, segundo previsão da própria montadora.
A unidade terá capacidade para 200 mil veículos e a previsão é a de que, por isso, constitua um novo parque de autopeças. (Agnaldo Brito)

 

"Pagamos até passagem aérea para candidato a vaga"

DO ENVIADO ESPECIAL DE SUAPE (PE)

Preencher vagas anda mais e mais difícil para as empresas instaladas no Complexo Industrial-Portuário de Suape. Uma guerra entre as empresas corre solta na região. A busca por profissionais é tamanha que há empresa oferecendo até passagem aérea só para trazer um candidato a vaga.
"Não há mais cordialidade entre os departamentos de recursos humanos. Estamos vivendo uma guerra por profissionais. Pagamos até passagem aérea para trazer um candidato a vaga para uma entrevista", diz Clóvis Gomes, 44, gerente de RH da Impsa.
A empresa busca 178 funcionários para a fábrica de turbinas hidrelétricas, uma nova unidade que será construída em Suape para montar as turbinas da usina Belo Monte, no rio Xingu (PA).
A Impsa não é a única empresa com problemas. O EAS (Estaleiro Atlântico Sul) precisa contratar 1.200 pessoas até junho.
Essa oferta abundante de vagas reduziu o desemprego na RMR (Região Metropolitana do Recife) nos últimos anos.
O nível de desemprego medido pelo IBGE caiu de 14,3% em dezembro de 2006 para 8,1% em dezembro do ano passado.
O ritmo da geração de novas vagas acelerou-se em 2010, ano em que só a construção civil cresceu 25%.

CARTEIRA ASSINADA
Apenas em 2010, o Estado de Pernambuco criou 113 mil empregos com carteira assinada, segundo dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados).
Entre esses empregos está o de Camila Ribeiro, 31. Formada em filosofia pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), ela é uma das três mulheres que ingressaram na área operacional do Terminal de Contêineres em Suape. Ela pilota um equipamento de US$ 1,6 milhão. (AB)

 

Expansão econômica de PE cria contradições e desafios

LUÍS HENRIQUE CAMPOS
ESPECIAL PARA A FOLHA

Pernambuco apresenta altas taxas de crescimento econômico, de consumo, de investimento e de emprego formal, aliadas à redução do desemprego e da pobreza absoluta, o que diminui a frequência com que se tratam as contradições inerentes a momentos transformadores como esses.
Mesmo sendo otimista em relação ao futuro do Estado, creio que se contribui mais apresentando as contradições e desafios que esse processo tem aberto do que apenas ficar reforçando os aspectos positivos.
A mobilidade urbana é o aspecto mais visível dos desafios ligados à infra- estrutura, tendo em vista a ocorrência cada vez mais intensa de enormes engarrafamentos nas maiores cidades do Estado.
Já estão em curso investimentos que tentam atacar tal problema. Contudo, a velocidade com que os mes- mos estão se efetivando é insuficiente para resolver o problema.
Ao mesmo tempo, pouca discussão tem sido feita sobre o descompasso existente entre a localização dos novos polos produtivos e a da população sem emprego. Isso gera pressão por fluxos migratórios definitivos ou pendulares.
Tais fluxos estrangulam a infraestrutura também na área da saúde, da educação e do saneamento e não podem ser enfrentados apenas pelo poder local.
No tocante à educação, o poder público já está fazen- do grande esforço no au- mento da oferta interiorizada de educação técnica e superior, bem como na qualificação profissional.
Nesse ponto, os desafios estão em fazer com que os conteúdos dos cursos foquem necessidades locais, mas, mais ainda, em fixar o corpo docente e gerar pesquisa aplicada que possa ser rapidamente transferida ao setor privado.
Ao mesmo tempo, a melhoria do ensino deve buscar a rápida ampliação do capital social, alicerce maior do desenvolvimento.
Os desequilíbrios econômicos intraestaduais intensificam-se devido à centralização dos investimentos privados em Suape.
Apesar de saber-se da existência de tendência natural na centralização da atividade econômica em certos locais, que deve ser contrabalançada pelo poder público, a estratégia que vem sendo tomada pelos governos estaduais desde o início do sé- culo é aproveitar-se do a- pelo de Suape para atrair as empresas, reforçando a concentração econômica na RMR (Região Metropolitana do Recife).

PROBLEMA AMBIENTAL
A velocidade dos investimentos em Pernambuco tem colocado em último plano a questão ambiental. Foram reduzidas áreas de preservação e realizados investimentos que estão longe de ter consenso entre os cientistas.
Com isso, estamos repetindo os erros cometidos no passado, de buscar o crescimento a qualquer custo.
Os bons números da economia devem gerar otimismo, mas não desviar a atenção das contradições inerentes ao crescimento.
Somente debatendo e criando saídas para essas contradições é que se con- seguirá o desenvolvimento, ou, quem sabe, com gran- des mudanças nas políti- cas públicas, o desenvolvimento sustentável.


LUÍS HENRIQUE CAMPOS é coordenador-geral de estudos econômicos e populacionais da Fundação Joaquim Nabuco.

 Folha de São Paulo

  


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