terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Conheça o homem de confiança de Chávez no Brasil

Se o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, é visto por alguns como um cavaleiro andante em busca da integração latino-americana sob o ideal bolivariano, seu fiel escudeiro no Brasil é, sem dúvida, o engenheiro civil Darc Costa, sócio-diretor da consultoria Desenvolvimento, Logística e Cenários (DLC). Ex-vice-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) na curta e conturbada administração do economista Carlos Lessa, de janeiro de 2003 a novembro de 2004, Darc está por trás dos principais projetos tocados em conjunto pelos dois países, como a refinaria de petróleo em Pernambuco, e luta arduamente pela entrada dos venezuelanos no Mercosul. 

"Ele é muito chegado ao Chávez, que se sente inspirado por suas ideias para a integração do continente a partir de grandes projetos estruturais. Nos últimos anos, tem atuado como uma espécie de encarregado de negócios da Venezuela no Brasil", confidencia um amigo, que completa: "Era ele quem mandava de fato no BNDES". Considerado um típico carioca boa-praça que acabou de completar 60 anos, Darc Costa confirma a amizade com o presidente, mas nega o papel de agente facilitador dos planos venezuelanos no país. "Isso é uma bobagem. Não tenho nenhum mandato formal ou informal para tomar conta dos negócios deles aqui. Para fazer esse trabalho, existe a embaixada", diz. 

O fato é que Darc é o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Venezuela do Rio de Janeiro, trabalhou intensamente no acordo entre a Petrobras e a PDVSA, estatal petrolífera venezuelana, para a construção da refinaria em Abreu e Lima (PE), e idealizou o projeto do gasoduto que ligará os dois países, desembocando na Argentina. Nas longas participações que faz na TV estatal sob suas ordens, Chávez cita "o professor Darc" numa frequência comparável à que se refere ao escritor uruguaio Eduardo Galeano. Dois dos livros de cabeceira do coronel são As veias abertas da América Latina, de Galeano, e Estratégia Nacional – a cooperação sul-americana, do brasileiro. 

Identidade 
A relação dos dois começou quando o general venezuelano Martins de Mendoza, ex-aluno de Darc Costa na Escola Superior de Guerra (ESG), onde foi coordenador do Centro de Estudos Estratégicos, apresentou o livro ao presidente. Chávez gostou tanto que o editou no país e chamou o autor para uma conversa. Isso ocorreu em 2003, depois de sua saída do 

BNDES. O papo foi longo e a identidade de pensamentos sobre a integração entre os países latino-americanos surpreendeu. Desde então, os contatos têm sido bastante frequentes. "Nos conhecemos, trocamos ideias e nos damos muito bem, mas eu nunca tomei cachaça com ele", brinca o professor, traçando um limite entre aproximação e amizade. 

Darc se envolveu pessoalmente na votação, no Congresso brasileiro, sobre a entrada da Venezuela no Mercosul. Esteve em Brasília, fazendo corpo a corpo com parlamentares. Para ele, só existem vantagens na adesão do país vizinho, que se tornará o quinto sócio do bloco, se os congressistas paraguaios ratificarem o acordo. Nos cálculos do consultor, a incorporação vai aumentar a economia do grupo em 15%, com a geração de riquezas passando de US$ 2 trilhões para US$ 2,3 trilhões por ano. O comércio intrabloco deve crescer 30%. Em 2008, a corrente comercial entre Brasil e Venezuela ficou em US$ 6 bilhões, com os brasileiros vendendo US$ 5,5 bilhões e comprando apenas US$ 500 milhões. 

"É uma situação insustentável. Não se faz integração com tanto desequilíbrio", diz. A situação deve melhorar quando a refinaria pernambucana começar a operar em 2013, após investimentos de US$ 5,5 bilhões da Petrobras e de US$ 4,5 bilhões da PDVSA. A planta vai refinar 230 mil barris de petróleo por dia — metade da produção será comprada pelo Brasil. Com base no preço de US$ 80 o barril, a aquisição vai significar uma transferência anual de US$ 1,5 bilhão para a Venezuela. 

Negócio 
O professor desqualifica a crítica de que o empreendimento só foi levado adiante por interesse político e afeição ideológica entre Chávez e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na sua visão, o bom relacionamento entre os dois foi importante para viabilizar o projeto, mas as vantagens econômicas são óbvias. A refinaria será a primeira na América do Sul a tratar o óleo pesado, que tem custo de processamento menor do que o leve. Ela viabilizará o funcionamento do Porto de Suape, multiplicará por três o dinheiro investido, estimulando a abertura de fábricas de produtos petroquímicos, bens de capital e insumos. "É um ótimo negócio", garante. 

Darc vê a experiência sul-americana como o primeiro passo na internacionalização por que o país deve passar. Seguindo cientistas sociais de esquerda, como o antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997), o consultor vê no povo brasileiro o perfil ideal para o sucesso. "A miscigenação que se deu aqui nos tornou um povo especial, com uma riqueza cultural sem par. A tolerância, que nós temos como um dos principais atributos, será a base para a construção do novo mundo. Nisso, saímos na frente", assegura. No seu novo livro, Fundamentos para o Estudo da Estratégia Nacional, lançado há dois meses, ele detalha o que considera ser o mapa para a inserção do país no mundo. No texto, Darc defende algumas ideias que, ele mesmo admite, são consideradas "jurássicas" pelos economistas liberais de hoje. 

O consultor atribui o uso do termo pejorativo ao fato de muitas de suas teses colidirem com o "discurso dominante", que mantém o Brasil na periferia. Ele volta, por exemplo, à antiga teoria de que, para se desenvolver, uma nação precisa ter uma grande densidade populacional. A brasileira é de apenas 22 pessoas por km². Para ficar próxima do ideal, a população deveria crescer dos atuais 193 milhões de habitantes para pelo menos 400 milhões, numa expansão de 107%. "Temos grandes vazios que precisam ser povoados. Não se pode ver o ser humano apenas como consumidor. Ele é, antes de tudo, um produtor", diz. 

A passagem pelo BNDES deu ao estrategista a certeza de que o país pode crescer, mas também a de que é preciso liberar as forças produtivas para tornar o sonho realidade. Ele qualifica seu período na cúpula do banco como uma luta contra a política monetária restritiva, que mantinha os juros reais mais altos do mundo. "Tive uma carta de alforria quando saí de lá. Tudo que tentávamos fazer esbarrava na ortodoxia. A minha alegria é que o segundo governo Lula está fazendo tudo o que a gente pregava, como o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e os estímulos às empresas", afirma.

Fonte: Correio Braziliense

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